Ilha do Ferro: da prática do ex-voto ao surgimento de um dos movimentos artísticos mais autênticos e apreciados do Brasil
Na minha infância, nos anos 1980, quando morava em Pão de Açúcar (AL), eu
via com frequência cabeças, braços, pernas e outras partes do corpo humano
esculpidas em madeira na casa de algumas pessoas. Curioso como sempre fui,
perguntava o motivo daquelas peças estarem ali, e a resposta era quase sempre a
mesma: “para pagar uma promessa”.
Essa prática, típica do catolicismo popular — com origem na Europa do século
IV — é chamada de ex-voto (do latim ex-voto suscepto).
Tornou-se muito comum no Nordeste brasileiro, embora seja conhecida em quase
todo o país e também em outras partes do mundo. Eu mesmo cheguei a ver essas
“peças” em Aparecida do Norte (SP), quando estive lá em 2006.
Para ilustrar: imagine que uma pessoa descobre uma doença grave, passa por
tratamento e, depois, é considerada curada pelos médicos. Como forma de
gratidão e consagração, essa pessoa encomenda a um artesão uma escultura — por
exemplo, uma cabeça de madeira — para ser deixada em um templo ou local
sagrado. Com o tempo, muitos artesãos se especializaram nesse tipo de trabalho,
especialmente em regiões remotas, onde a fé sempre foi uma ferramenta essencial
de sobrevivência. Guarde essa informação, pois ela será fundamental ao longo
deste texto.
A vontade de conhecer a Ilha do Ferro vem desde essa mesma década citada
acima. No entanto, por ser criança, eu não poderia ir sozinho. Minha família,
que não tinha raízes no local, também não demonstrava interesse. O vilarejo
fica a alguns quilômetros de Pão de Açúcar (AL) — distância que, na memória
infantil, parece sempre maior — e o acesso era difícil, muitas vezes
impossível. Em períodos de chuva, os alagamentos impediam a passagem por terra,
chegando, às vezes, a romper barragens (algo que hoje já não ocorre graças a
obras importantes). A estrada, aliás, era bastante acidentada e continua sendo
de terra e pedregulho até hoje.
Muitas famílias que eu conhecia, originárias de lá, faziam a curta viagem de
lancha pelo belíssimo Rio São Francisco, onde o encanto começa logo nos
primeiros minutos de navegação, diante de uma paisagem bucólica, quase como um
quadro pintado à mão em movimento. Essa, inclusive, seria a minha primeira
opção para chegar até lá. O trajeto dura cerca de 45 minutos.
Vale ressaltar que, naquela época, o artesanato da Ilha do Ferro ainda não
tinha a escala de produção, o direcionamento, a projeção e a fama que possui
hoje. Ainda assim, era destino frequente de pessoas ligadas por laços
familiares e também pelas festividades religiosas locais, especialmente em
períodos eleitorais.
Após alguns anos sem visitar Alagoas, finalmente consegui realizar essa
viagem no início de janeiro de 2026, acompanhado da minha querida mãe, natural
de Pão de Açúcar (AL) e profundamente apaixonada pela região. Um detalhe
importante, ainda não mencionado: a Ilha do Ferro pertence à comarca de Pão de
Açúcar, ficando a cerca de 18 km da cidade e aproximadamente 250 km da capital,
Maceió.
Cheguei no fim de semana mais badalado da região, quando acontecia a
tradicional Festa de Bom Jesus dos Navegantes — uma celebração católica que
mobiliza toda a região, com uma programação intensa que inclui atividades
esportivas, culturais e shows de grandes nomes da música brasileira. Optei,
então, por esperar o encerramento da festa para seguir até a Ilha do Ferro.
Dois dias depois, conforme combinado com Iria Souza — amiga pessoal, guia
cultural da região e conhecedora da história local — seguimos em direção ao
Cristo Redentor no início da tarde. (Pão de Açúcar possui uma belíssima e
imponente estátua do Cristo Redentor, no alto de um morro, datada da década de
1950, semelhante à do Rio de Janeiro.) Esse é o caminho terrestre para a Ilha
do Ferro, a leste da cidade. Iria possui uma espécie de “free pass” na Ilha,
algo essencial para meu acesso aos ateliês, pousadas, residências e para a
realização das entrevistas com os artesãos.
Ao chegar, entramos imediatamente no Ateliê Boca do Vento. Logo percebi um
alto grau de organização: placas personalizadas, orientações claras, exposição
cuidadosa das peças e, inclusive, etiquetas com preços. Pensei de imediato:
“Estamos diante de um polo de artesanato já consolidado”. Eu sabia que tudo
estava indo muito bem, mas confesso que não imaginava encontrar tamanha
estrutura.
Um parêntese: a Ilha do Ferro vem sendo amplamente divulgada pela mídia nos
últimos anos, aparecendo em noticiários, jornais, revistas e diversos outros
veículos. Por lá já passaram personalidades conhecidas do grande público, como
Luciano Huck (TV Globo), Zé Celso Martinez Corrêa (teatrólogo), Bruna Linzmeyer
(atriz), Renato Teixeira (cantor e compositor), Álvaro Garnero (apresentador),
entre muitos outros, o que ajudou a projetar o lugarejo nacionalmente. Essa
visibilidade também atraiu marcas como Cantão e Renner, que desenvolveram
trabalhos ligados ao reduto artesanal da Ilha.
Reportagens regionais também já foram realizadas por emissoras como TV
Globo, SBT, Record e outras redes. Um fator curioso dessa projeção foi o ENEM.
Sim, o Exame Nacional do Ensino Médio trouxe a arte da Ilha do Ferro como tema
de uma questão do Caderno Verde, destacando especificamente a escultura em
graveto de Yang Farias. A fonte citada na prova foi o blog de Nide Lins.
Voltando à visita: em poucos minutos de conversa com Rejania Rodrigues, do
Ateliê Boca do Vento, filha de Fernando Rodrigues, ficou claro que todo aquele
movimento artístico em madeira — esculturas, adaptações e criações — teve
origem direta no ex-voto. Sim, aquela mesma prática católica citada no
início do texto. Foi exatamente desse ponto que tudo começou e, aos poucos,
evoluiu para a arte que conhecemos hoje. Mais tarde, as peças passaram a ser
pintadas, inicialmente por Vavan, dando origem a uma identidade visual própria
da região.
Foi Seu Fernando quem iniciou essa transição. Tornou-se referência na arte
de entalhar ex-votos e outras peças e, certa vez, durante uma ida à
lavoura nos idos de 1990, encontrou um galho que lembrava a forma de um animal.
Ali surgiu o estalo criativo — o início da chamada “arte imaginária”, como
muitos definem — que consiste em aproveitar a forma natural da madeira bruta já
sugerindo figuras. A partir daí, uma infinidade de ideias surgiu: pedaços de
madeira e gravetos passaram a se transformar em representações da fauna e flora
locais — pássaros, peixes, flores, folhas, plantas e frutos.
Hoje, sua família segue esse legado, com destaque para sua neta, Camille
Rodrigues, do Ateliê Boca do Vento, a primeira mulher artesã a atuar em um
ofício que até então era predominantemente masculino.
Com o tempo, vieram também os móveis: cabeceiras, bancos, cadeiras,
criados-mudos e inúmeras peças decorativas e utilitárias — tantas que nem
consigo listar aqui. Soma-se a isso o belíssimo bordado Boa Noite, que vem
ganhando destaque em todo o país, mas que merece, sem dúvida, uma nova visita,
com mais tempo.
De perto, pude apreciar as impressionantes cabeças de Aberaldo, do Ateliê
Mestre Aberaldo, curiosamente semelhantes às da Ilha de Páscoa. Também me
encantei com as figuras inusitadas de Petrônio, do Ateliê Escola Corrupião, e
com as coleções especiais de seu filho Yang, do Ateliê Yang da Paz, que
trabalha com gravetos e cores vibrantes. Destaque ainda para o cuidado
minucioso das peças que mesclam o bruto e o polido dos irmãos Diego e Vinícius,
do Ateliê Farias, e para as cores vivas e as obras quase megalomaníacas de Seu
Vavan, expostas em sua própria casa.
Ao observar cada uma daquelas peças, eu via fé, ingenuidade, instinto de
sobrevivência, dignidade, coragem e, acima de tudo, muita arte e capacidade de
reinvenção. Aquilo tudo transcende nosso entendimento cosmopolita limitado, mas
nos atinge em cheio — quase como o amor. Aliás, foi amor à primeira vista, no
meu caso. É impossível descrever em palavras tudo o que contemplei em poucas
horas. O termo “surreal” até se aplica, mas tudo é tão real que ele acaba sendo
inadequado.
Hoje compreendo plenamente a reverência que essa arte vem recebendo e como ela
tem transformado a vida das pessoas que dela sobrevivem, gerando renda,
financiando novos projetos, novos sonhos e uma nova realidade. Estados como São
Paulo, Rio de Janeiro, Distrito Federal e Minas Gerais “importam” regularmente
peças adquiridas diretamente dos ateliês da Ilha. O turismo também já é algo
real e pessoas de todo mundo desembarcam lá semanalmente para desbravar os
encantos da singela vila.
Por fim, posso afirmar: nenhuma fotografia é capaz de traduzir o verdadeiro
encantamento que se experimenta in loco. Ver tudo aquilo pessoalmente,
ao vivo e em cores — muitas cores — é simplesmente mágico. Não à toa, esse é o
segundo nome pelo qual a Ilha do Ferro é conhecida entre seus nativos: Ilha Mágica.
P.S.: A Ilha do
Ferro conta com excelentes opções de hospedagem, oferecendo acomodações
confortáveis, climatizadas e que atendem com excelência até os turistas mais
exigentes. Vale lembrar que a proposta da estadia deve ser pensada como
ecoturismo, com foco na natureza, no banho de rio e no contato com a
ancestralidade. A gastronomia é deliciosa, com iguarias nordestinas típicas,
variadas e cheias de sabor.
Nos próximos dias, publicarei uma vídeo-reportagem especial no perfil do Instagram deste blog, mostrando a visita que deu origem a este texto. Será
possível vislumbrar, ainda que com menor intensidade, tudo o que foi relatado
aqui.
Agradecimentos especiais a Iria Souza, minha guia extremamente prestativa e
preparada, e a Alessio Lima, responsável pelo transporte confortável e pelas
boas gargalhadas (risos) — ambos amigos de longa data que guardo no coração.
Também nos acompanhou Clayton Rocha. Abaixo, listo perfis importantes do
Instagram relacionados à visita e que podem ser úteis para você, leitor, caso
tenha interesse em conhecer esse destino único.
@iriasouza – Guia Turística.
@prefeitura.paodeacucar – Prefeitura da cidade.
@visite.ilha.do.ferro – Página da Ilha do Ferro.
@atelie_boca_do_vento – Ateliê Boca do Vento.
@aberaldoilhadoferro – Ateliê Mestre Aberaldo.
@petronio_artesao – Ateliê Escola Corrupião.
@atelieyangdapaz – Ateliê Yang da Paz.
@fariasilhadoferro – Ateliê Farias.
Reportagem: Jerryer Nunes.
